[panfleto 18 de novembro]

Panfletos 18 de novembro de 2012

Contribuição para “Ato-Show contra o Genocídio da Juventude na Periferia” organizado pelo Movimento Luta Popular

Texto 1

Nós mulheres da periferia, além da situação de medo intensificada pela onda violência da guerra entre a polícia e o crime organizado, estamos em resistência, denunciando e protestando permanentemente contra a violência doméstica e sexual de todos os dias.

Para nós mulheres o toque de recolher existe todos os dias. Não é um fato que de tempos em tempos acontece impulsionada por uma guerra civil.

O toque de recolher para as mulheres da quebrada é aquele que na calada da noite, milhares de mulheres são confrontadas com o perigo de ser mulher e ser abordada no “lugar e hora errada com a roupa errada” em lugares abandonados e vazios do entorno de onde moram. Para ficar mais claro, esse toque de recolher se chama estupro, no qual mulheres passam por situações todos os dias tendo que fugir do agressor, seja ele conhecido ou desconhecido. Somos confrontadas diariamente com assédio e violência sexual, e muitas de nós perdemos nossa vida, seja ela simbolicamente ou fisicamente.

Por isso, sabemos que viver com medo (ou simplesmente não viver) no seu próprio bairro é de fato uma situação calamitosa, vergonhosa, violenta. Chamamos a atenção para os diversos toques de recolher que perpetuam nas quebradas por aí. Nós mulheres sabemos o que é correr risco de vida por simplesmente andar por ai, sabemos o que é não poder andar tranquilamente em becos e vielas sem ser abordada por uma arma e um homem.

Além da violência decorrente da não garantia de direitos da população empobrecida, a mulher é violentada tanto na rua mas, especialmente, em seu domicílio, mesmo com a Lei Maria da Penha.

Entre os homens, só 14,7% dos incidentes aconteceram na residência ou habitação. Já entre as mulheres, essa proporção eleva-se para 40%.

Duas em cada três pessoas atendidas no SUS em razão de violência doméstica ou sexual são mulheres; em 51,6% dos atendimentos foi registrada reincidência no exercício da violência contra a mulher. 94% conhecem a Lei Maria da Penha, mas apenas 13% sabem seu conteúdo.

A maioria das pessoas (60%) pensa que, ao ser denunciado, o agressor vai preso. 52% acham que juízes e policiais desqualificam o problema. *

Além das músicas ( que todo dia não temos escolha em ouvi-las ou não nas ruas ) propagandas e programas de auditórios em que a mulher é como se fosse apenas um objeto sexual, o comportamento machista tolerado e, muitas vezes, reproduzidos em nossa sociedade reforça a ideia de que a mulher é propriedade de alguém que se sente no direito de violentá-la tanto física, sexual, material, psicológica e/ou moralmente.

Vivemos inseguras ao andar na rua com medo de sofrer estupro. Enquanto mulheres que já passaram por tamanha violência ter que conviver com estes estupradores soltos por descaso de uma policia machista. Mas não só nas ruas, estatísticas informam que a maior parte dos casos de violência sexual acontece em ambiente familiar.

Por sermos empobrecidas e nosso trabalho ser menos remunerado que o dos homens, por vezes continuamos dependentes do nosso agressor financeiramente. Por sermos empobrecidas, não temos acesso à justiça.

Neste dia 18 de Novembro, nós mulheres negras, indígenas, empobrecidas da periferia gritamos por liberdade! A Periferia Marcha! A Periferia Luta! A Periferia Resiste até o amanhecer guardar um dia justo e livre para todos os homens e mulheres.

***

Texto 2 – Poesia de Jennyfer Nascimento

O grito

Tenho um grito entalado na garganta
Um grito longo, fino, estridente,
Um grito dolorido, abafado.

Um grito de mulher.Feminismo?
Não sabia nem o que era.
E mesmo antes de saber,
O grito já estava lá.
Sempre esteve.
(Me sufocando)Em toda a parte,
Em todos os lugares.- Não tenha amigos homens.
– Lugar de mulher é no fogão.
– Mulher tem que se dar o respeito.
– Tá parecendo uma puta com essa saia curta.
– Madrugada não é hora de mãe de família ficar pela rua.
– Nem pense em transar no primeiro encontro.
– Seu batom vermelho está chamativo demais.
– Obedeça ao seu marido.
– Mulher de bar não presta.
– “Mulheres vulgares uma noite e nada mais”Faça isso, não faça aquilo.
Seja assim, não seja assado.Regras demais,
Condutas demais,
Proibições demais.Por quê?
Pelo simples fato de ser mulher?
Até quando?

A encoxada matinal no busão,
A cantada barata do chefe cretino,
A passada de mão na escada do metrô,
Murros e pontapés do próprio companheiro.
Sem falar dos estupros e da diferença salarial…

Então é só isso?

Criar os filhos,
Cuidar da casa,
E servir meu sexo numa bandeja
Sempre que o outro quiser?

Na multidão, muitas mulheres já estão mortas.
Dá pra ver nos olhares opacos,
Morreram por dentro
E apenas vagueiam.

E quando essas mulheres morrem,
Os homens, rebentos de seus ventres,
Ainda não perceberam,
mas estão morrendo também.

Não é possível, ninguém vai fazer nada?

Mas há também as mulheres que lutam,
Dá pra reconhecer pelo olhar firme e aceso
No vai e vem da marcha cotidiana.

Carrego comigo o legado,
De minha mãe, de minha avó
E de tantas outras que me antecederam.
O grito que carrego também é delas.

Pelos prazeres que não puderam ter,
Pelo corpo feminino que não podiam explorar,
Pela palavra que não puderam dar,
Pelo potencial não exercido,
Pelo choro em lágrimas seca.

Tenho um grito entalado na garganta.
Um grito denso, volumoso,
Um grito ardido, de veias saltadas.
E hoje ele vai sair.

– O corpo é meu!

Nós mulheres da periferia, além da situação de medo intensificada pela onda violência da guerra entre a polícia e o crime organizado, estamos em resistência, denunciando e protestando permanentemente contra a violência doméstica e sexual de todos os dias.

Para nós mulheres o toque de recolher existe todos os dias. Não é um fato que de tempos em tempos acontece impulsionada por uma guerra civil.

O toque de recolher para as mulheres da quebrada é aquele que na calada da noite, milhares de mulheres são confrontadas com o perigo de ser mulher e ser abordada no “lugar e hora errada com a roupa errada” em lugares abandonados e vazios do entorno de onde moram. Para ficar mais claro, esse toque de recolher se chama estupro, no qual mulheres passam por situações todos os dias tendo que fugir do agressor, seja ele conhecido ou desconhecido. Somos confrontadas diariamente com assédio e violência sexual, e muitas de nós perdemos nossa vida, seja ela simbolicamente ou fisicamente.Por isso, sabemos que viver com medo (ou simplesmente não viver) no seu próprio bairro é de fato uma situação calamitosa, vergonhosa, violenta. Chamamos a atenção para os diversos toques de recolher que perpetuam nas quebradas por aí. Nós mulheres sabemos o que é correr risco de vida por simplesmente andar por ai, sabemos o que é não poder andar tranquilamente em becos e vielas sem ser abordada por uma arma e um homem.Além da violência decorrente da não garantia de direitos da população empobrecida, a mulher é violentada tanto na rua mas, especialmente, em seu domicílio, mesmo com a Lei Maria da Penha.Entre os homens, só 14,7% dos incidentes aconteceram na residência ou habitação. Já entre as mulheres, essa proporção eleva-se para 40%.Duas em cada três pessoas atendidas no SUS em razão de violência doméstica ou sexual são mulheres; em 51,6% dos atendimentos foi registrada reincidência no exercício da violência contra a mulher. 94% conhecem a Lei Maria da Penha, mas apenas 13% sabem seu conteúdo.A maioria das pessoas (60%) pensa que, ao ser denunciado, o agressor vai preso. 52% acham que juízes e policiais desqualificam o problema. *Além das músicas ( que todo dia não temos escolha em ouvi-las ou não nas ruas ) propagandas e programas de auditórios em que a mulher é como se fosse apenas um objeto sexual, o comportamento machista tolerado e, muitas vezes, reproduzidos em nossa sociedade reforça a ideia de que a mulher é propriedade de alguém que se sente no direito de violentá-la tanto física, sexual, material, psicológica e/ou moralmente.

Vivemos inseguras ao andar na rua com medo de sofrer estupro. Enquanto mulheres que já passaram por tamanha violência ter que conviver com estes estupradores soltos por descaso de uma policia machista. Mas não só nas ruas, estatísticas informam que a maior parte dos casos de violência sexual acontece em ambiente familiar.

Por sermos empobrecidas e nosso trabalho ser menos remunerado que o dos homens, por vezes continuamos dependentes do nosso agressor financeiramente. Por sermos empobrecidas, não temos acesso à justiça.

Neste dia 18 de Novembro, nós mulheres negras, indígenas, empobrecidas da periferia gritamos por liberdade! A Periferia Marcha! A Periferia Luta! A Periferia Resiste até o amanhecer guardar um dia justo e livre para todos os homens e mulheres.

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